Alegria

” […] Se você vai ter que conviver com você mesmo até o fim, se você vai ter que se aguentar até o fim, se você vai ser expectador de você mesmo até o fim, é melhor que você se encante com o que faz.

A definição de Espinosa é muito clara: alegria é a passagem para um estado mais potente do próprio ser. 

A expectativa de que haja uma fórmula pra vida é a fonte de tantas das nossas decepções. Que tal de peito aberto, aberto pro mundo, encarar o mundo como ele é?

No seu ineditismo, na sua virgindade, na sua irrepetibilidade, e saber que sem fórmula nenhuma estamos aí diante de um mundo extraordinariamente competente pra te entristecer, mas aqui e ali também capaz de te proporcionar grandes alegrias, grandes surpresas, momentos que você nunca mais gostaria que acabasse. São esses momentos que a gente persegue, e que farão da vida sempre alguma coisa digníssima de ser buscada e fantástica de ser vivida! […] “

Professor Clóvis de Barros Filho em entrevista.

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Na manjedoura

Por Clarice Lispector

Na manjedoura estava calmo e bom. Era de tardinha, ainda não se via a estrela. Por enquanto o nascimento era só de família. Os outros sentiam, mas ninguém via. Na tarde já escurecida, na palha cor de ouro, tenro como um cordeiro refulgia o menino, tenro como o nosso filho. Bem de perto, uma cara de boi e outra de jumento olhavam, e esquentavam o ar com o hálito do corpo. Era depois do parto e tudo úmido repousava, tudo úmido e morno respirava. Maria descansava o corpo cansado, sua tarefa no mundo seria a de cumprir o seu destino e ela agora repousava e olhava. José, de longas barbas, meditava; seu destino, que era o de entender, se realizara. O destino da criança era o de nascer. E o dos bichos ali se fazia e refazia: o de amar sem saber que amavam. A inocência dos meninos, esta a doçura dos brutos compreendia. E, antes dos reis, presenteavam o nascido com o que possuíam: o olhar grande que eles têm e a tepidez do ventre que eles são.

A humanidade é filha de Cristo homem, mas as crianças, os brutos e os amantes são filhos daquele instante na manjedoura. Como são filhos de menino, os seus erros são iluminados: a marca do cordeiro é o seu destino. Eles se reconhecem por uma palidez na testa, como a de uma estrela de tarde, um cheiro de palha e terra, uma paciência de infante. Também as crianças, os pobres de espírito e os que amam são recusados nas hospedarias. Um menino, porém, é o seu pastor e nada lhes faltará. Há séculos eles se escondem em mistérios e estábulos onde pelos séculos repetem o instante do nascimento: a alegria dos homens.

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Reflexão de Frida Kahlo

“Deus meu! Dizer que a dor tenha raízes em mim. Em minha crise. Grita. Cérebro, até que ponto controla toda essa distorção? Vida minha, qual é a tua parte de responsabilidade?

Às vezes, duvidei de que a poliomielite e o acidente houvessem existido realmente, pensei que meu corpo inventou tudo, que nasci com ele, se desbaratou só por um obscuro desejo de destruição. Um corpo é um todo, não é verdade? Uma harmonia. Si se lhe tiram um elemento – ainda que seja mediante uma cirurgia estética – sempre lhe faltará algo. Uma parte do corpo que se transforma, que se amputa, é o início de uma lenta mutilação. Outras coisas seguirão sendo amputadas, até que já não reste mais nada.

Assim é como penso. E minha vida tem sido este processo. Alguns ingênuos – ou seriam irônicos? – se atrevem ainda a perguntarme por que sempre me represento tão séria em meus quadros. Observo-os sem pestanejar e sem responder.

Não vou pintar-me rindo constantemente. Não é que não me deixo rir na vida diária, – inclusive até que ponto – mas quando me encontro só em mim mesma – e esse é o caso de quando estou pintando, sem alternativa possível – não, realmente, não tenho vontade de rir. Minha vida é uma história séria. E, me atreveria a afirmar: que pintar também o é.

Oh, Deus meu! Deita-me. Não sei o que está acontecendo. Tenho a sensação que minha coluna vertebral não é a única que deseja a dor que se instala em minhas costas. É como se os nervos unidos a ela se enrijecessem. Como se os músculos que a sustentam, que tratam de sustentá-las e trabalham tanto que se amarram, eles mesmos sofreram para não ‘calar o bico’. Da nuca até a envergadura dos rins, uma dor compacta surda e a impressão de uma fragilidade extrema, que é o que segura a que? Não sei. Tudo se entope tudo se aflorará.

Oh, Deus meu, deita-me.

Quantos coletes e demais aparatos ortopédicos tenho usado em minha vida? No mínimo, trinta. Alguns eu decorei: com pintura, com pedaços de tela ou de papéis colados, plumas multicoloridas, pedaços de espelhos… Sem embargo, apesar desse corpo ferido e adornado com pedaços de gesso e de ferro antiestéticos, tenho que reconhecer que tenho sido ‘loucamente amada’, segundo a expressão de Breton. Tlazolteotl, a deusa do Amor, deve estar comigo.

Tenho sido amada, amada, amada – não o suficiente, porque nunca se quer o suficiente, uma vida não basta – E eu tenho amado sem cessar. Com amor, com amizade. A homens e a mulheres. Um dia um homem me disse que eu fazia amor como uma lésbica. Me peguei a rir. Perguntei se era satisfatório, respondeu-me afirmativamente. Então, lhe disse que em minha opinião uma mulher goza com todo o seu corpo, e que esse era o privilégio do amor entre as mulheres. Um conhecimento mais profundo do corpo do outro, teu semelhante, um prazer mais total. O reconhecimento de uma aliada.

Apesar de uma aventura muito superficial que tive durante minha adolescência, não creio, que não tenha sido pelo acidente que houvesse voltado a fazer amor com uma mulher. O acidente determinou tantas coisas, creio, desde o elemento pintura até minha forma de amar. Tanta vontade de sobreviver implica em uma grande experiência da vida.

Esperei muito dela, consciente, a cada passo, do que estive a ponto de perder. Não havia meio tinta, tinha que ser tudo ou nada. Da vida, do amor, tive uma sede inesgotável. Além disso, quanto mais ferido estava meu corpo, mais necessitava confiá-lo às mulheres: elas o entendiam melhor. Entendimento tácito, doçura imediata. (Sem embargo, prefiro os homens, realmente, ainda que Diego se empenhe em sustentar o contrário, recordando, numa reunião com amigos, como eu flertava com Geórgia O’Keefle (1887-1986, escultora) em Nova York). ‘Tua sexualidade é dúbia, se lê em seus quadros’, haviam me dito algumas vezes. Creio que fazem alusão aos quadros em que meu rosto tem uns traços masculinos. Ou em detalhes: em tal quadro, veja, que tem um caracol, um símbolo de hermafroditismo… Ah, sim! E meu sempre eterno ‘bigode’! A esse respeito devo confessá-lo: é uma história com Diego. Uma vez, me ocorreu depilar-me e Diego se colocou ‘histérico’.

Diego gosta de meu bigode, esse signo de distinção, no século XIX, das mulheres da burguesia mexicana que mostravam desse modo suas origens espanholas (como se sabe, o índio é limpinho, sem barba). Creio que somos múltiplos: que um homem leva a marca da feminilidade; que uma mulher leva o elemento homem e que ambos levam a criança neles. Há erotismo em minha pintura?

Mantém-se no limite. É precisamente esse limite o que desvela, a meu entender, a força do erotismo. Se descobrisse a totalidade, a tensão desapareceria e com ela a sensualidade contida numa olhada, na postura de uma mão, em uma prega do vestido, na matéria de uma planta, uma sombra, uma cor. Há masoquismo, perversidade, na representação desse corpo esfolado?

Deixo a quem corresponda o cuidado de analisar esse destino, marcado na pele. Em troca, não dou a ninguém o direito de julgar minhas feridas, reais ou simbólicas. Minha vida está inscrita nelas em vermelho vivo, meu envelope era transparente. Apoderou-se excessivamente de mim, possuindo-me a cada instante. Como contrapartida, ainda que o assunto era árduo, a senti mais de perto. Não temos o direito de julgar uma vida tão densa, nem sua força traduzida em pintura.

Azar? Fatalidade? Não há resposta para tanta dor”.

(JAMÍS, 1994, p.253/4/5).

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